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Saúde mental: o papel no sistema endocanabinoide na modulação da ansiedade e do humor

Estudo indica benefícios do uso de produtos derivados de Cannabis medicinal no tratamento de transtornos psiquiátricos

Evidências encorajadoras, embora embrionárias, têm despertado cada vez mais o interesse da comunidade médica quanto ao uso dos canabinoides para o tratamento de transtornos psiquiátricos.

Com o aumento da pesquisa científica registrado nos últimos anos, o pêndulo regulatório da Cannabis tem se afastado cada vez mais da Convenção Única das Nações Unidas sobre Drogas Narcóticas em 1961 – que recomendava a aplicação do uso de Cannabis como ilegal – e seguido em direção ao seu uso medicinal, como opção terapêutica para diferentes patologias.

Evidências científicas recentes atribuem aos canabinoides ações farmacológicas ansiolíticas, neuroprotetoras, antioxidantes, anti-inflamatórias, antidepressivas, antipsicóticas e hipnóticas, devido a vários fitoquímicos comumente encontrados na planta.

Dados da revisão “Medicinal cannabis for psychiatric disorders: a clinically-focused systematic review” apontam importantes benefícios do uso de produtos derivados de Cannabis medicinal no tratamento de quadros relacionados à saúde mental.

Publicado em 2020 por pesquisadores da Western Sydney University, na Austrália, o estudo tem  como objetivo fornecer uma revisão sistemática do estado atual das evidências no campo emergente das terapias com canabinoides para transtornos psiquiátricos como TEPT, transtorno de ansiedade generalizada, ansiedade social, insônia, transtornos psicóticos e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

Ansiedade
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um modulador da ansiedade e do humor. De acordo com o estudo, dados recentes mostram que os canabinoides, ou substâncias que visam o SEC, podem interagir com regiões cerebrais específicas, incluindo o córtex pré-frontal medial, complexo amigdaloide, núcleo leito da estria terminal e hipocampo.

A interação com o receptor CB1 tem um efeito modulador na transmissão GABAérgica e Glutamatérgica, além de influenciar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), a ativação do sistema imunológico e os mecanismos neuroplásticos.

Em relação aos mecanismos de ação psicotrópicos específicos, os efeitos ansiolíticos (e antidepressivos) também podem ser parcialmente mediados pelos efeitos serotoninérgicos do CBD por meio da ativação do receptor 5-HT1A, e o agonismo do receptor CB1 do THC.

Estudos citados na revisão demonstraram que o CBD pode inibir parcialmente os efeitos psicoativos do THC.

Ainda de acordo com informações da revisão, um pequeno RCT duplo-cego preliminar comparou os efeitos de um teste simulado de falar em público em pacientes virgens de tratamento com ansiedade social versus participantes de controle saudáveis. Cada grupo recebeu uma única dose oral aguda de CBD (600 mg) 1,5 h antes do teste, ou placebo correspondente. Os resultados revelaram que o pré-tratamento com CBD reduziu significativamente a ansiedade, comprometimento cognitivo e desconforto no desempenho de fala do grupo de ansiedade social e diminuiu significativamente o hiper-alerta em seu discurso antecipatório em comparação com o grupo placebo (que apresentou maior ansiedade, comprometimento cognitivo, desconforto, e níveis de alerta mais elevados).

Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
O uso de planta inteira de Cannabis para o gerenciamento de sintomas de TEPT foi identificado em análises de uso e, em particular, em veteranos das forças armadas.

Segundo dados do estudo, existem altas concentrações de receptores endocanabinoides no córtex pré-frontal, amígdala e hipocampo, tendo um papel na aquisição e extinção do medo.

Evidências revelam que uma interrupção do sistema endocanabinoide prejudica a extinção do medo em camundongos knockout CB1, sugerindo um papel crítico dos receptores CB1 (e, portanto, potencialmente do THC) relacionados à extinção do medo.

Uma pesquisa envolvendo uma amostra de conveniência de 170 pacientes por meio de um dispensário de Cannabis medicinal na Califórnia avaliou uma variedade de elementos de saúde, a frequência do uso de cannabis e a saúde mental geral.

Os resultados revelaram que aqueles com altos escores de TEPT (avaliados por meio do The PTSD Checklist-Civilian Version) eram mais propensos a usar Cannabis para ajudar no enfrentamento da saúde mental, além de melhorar o sono, quando comparados com aqueles com baixos escores de TEPT.

Uma análise retrospectiva aberta de dados de estudo de caso de 11 adultos com TEPT avaliou os pacientes durante 8 semanas de tratamento com CBD (cápsula ou spray; dosagem média na semana 8 de 49 mg). Os resultados revelaram que houve redução de 28% na média dos sintomas de TEPT.

Outro estudo retrospectivo analisando sintomas de TEPT coletados durante 80 avaliações psiquiátricas de pacientes que se candidataram ao Programa de Cannabis Medicinal do Novo México durante 2009 a 2011 revelou achados mais favoráveis. Os dados identificaram uma redução superior a 75% nos escores de sintomas da escala pós-traumática administrada pelo clínico para DSM-IV (CAPS) quando os pacientes com TEPT usavam Cannabis em comparação com quando não usavam.

Embora este estudo tenha uma amostra pequena e seja uma análise retrospectiva com algumas deficiências metodológicas, uma redução de 75% no CAPS é um resultado convincente e estimulou RCTs que estão atualmente em recrutamento.

Depressão
Os fitocanabinoides e os terpenos têm uma aplicação potencial para a modulação do sistema endocanabinoide e do receptor 5HT1A para fornecer um efeito antidepressivo.

Uma pesquisa transversal sobre padrões de uso e eficácia percebida sugeriu que em mais de 1.429 participantes identificados como usuários de Cannabis medicinal, mais de 50% relataram usar Cannabis medicinal especificamente para depressão.

Insônia
Pacientes que sofrem de uma variedade de condições, incluindo dor, ansiedade e TEPT relataram que a Cannabis auxilia no controle da insônia.

Uma série de casos retrospectivos de 72 adultos que receberam CBD para queixas de ansiedade e sono em uma clínica psiquiátrica (como adjuvante ao tratamento usual) avaliou os dados do paciente mensalmente durante 12 semanas. Os escores de ansiedade na Escala de Avaliação de Ansiedade de Hamilton (HAMA) diminuíram no primeiro mês em 79% da amostra e permaneceram baixos durante a duração do estudo.

A pontuação do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh também melhorou no primeiro mês em 67% da amostra, mas flutuou ao longo do tempo. Deve-se observar que os dados não foram analisados ​​quanto à significância estatística e parece que a subamostra que se apresentou principalmente para tratamento de ansiedade não se saiu tão bem quanto a corte que se apresentou principalmente com problemas de sono.

Outro estudo, também citado na revisão, avaliou a segurança e tolerabilidade a longo prazo de um spray de THC/CBD e um spray de THC no alívio da dor em pacientes com câncer avançado. Embora os resultados tenham revelado uma redução consistente na dor percebida, os participantes também relataram uma diminuição na insônia, o que também refletiu menos fadiga. Os canabinoides podem ter um efeito duplo de diminuir a dor (o que facilita o sono), além de seus efeitos soporíficos e ansiolíticos diretos serem mediados em parte pela atividade serotoninérgica.

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Fonte: Sarris, J., Sinclair, J., Karamacoska, D., Davidson, M., & Firth, J. (2020). Medicinal cannabis for psychiatric disorders: a clinically-focused systematic review. BMC psychiatry, 20(1), 1-14.

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